Presença do analista

04/04/2010 03h22

 Presençca do Analista

Maria Helena Barbosa 

 

             Pronto! Fui fisgada por mais esse curso de JAM. Por dois motivos: ao ler sua segunda aula, que promove a série, pude vislumbrar que através da "Vida de Lacan", Miller está transmitindo o que seriam os princípios básicos da psicanálise de orientação lacaniana de uma forma única, nova, e, o que é o analista, mesmo que não haja a designação "o" para analista.

            Também, ao sair da nossa primeira reunião no módulo, foi se impondo a idéia de Jorge Forbes, o analista. Uma nomeação. Algo à la Joyce, o Sintoma. Isto não é "uma nominação com todo o aparato que a rodeia" ou uma chacrinha, como muitos transformaram os grados de AME e AE na Escola de Lacan. Essa nomeação tem a ver com algo de novo, de real, produzido na experiência, como um acontecimento. 

            Sei que estou sendo impulsiva e permito-me, impulsionada por isso que atravessa e porque estou entre amigos. Quero dividir com vocês as elucubrações que surgiram com a leitura destes dois capítulos.

            De pronto, fiquei impressionada ao me dar conta de que, em diversas coisas que JAM contou de Lacan, lembrava-me de Forbes. Curioso, isso não aconteceu por uma reflexão confrontada a uma imagem exaltada como diz JAM, na segunda aula.

            Não sou 'Forbete' como alguns costumam dizer das pessoas em suas relações com JF. Muito pelo contrário; o afeto, a transferência surgida, logo no início foi negativa mesmo que, sempre, tenha reconhecido nele, a competência.

           Essa lembrança efetivamente surgiu através da recordação de fatos vividos, tanto em análise, como nas instituições em que participo junto a ele. Uma história cunhada em alguns tantos anos em que estou no seu rastro, como costumo dizer.

            Essa história também me faz apropriar de alguns dos pensamentos de JF, de alguns acontecimentos, assim como JAM o fez em relação a Lacan. É engraçado, pois, de fato, essa operação anula o que aí é meu ou dele, deixando para mim muita responsabilidade.

            Não quero esperar sua morte, que inclusive pode ser depois da minha, para fazer "viver, palpitar e dançar seus conceitos". Desenvolvê-los, difundi-los, trabalhá-los é estar participando da história da psicanálise para o séc. XXI, no que Forbes traz de inédito, de real para quem quiser ouvi-lo.

            Também fazer justiça a ele é algo em que, vira e mexe, me vejo convocada. Já perdi a conta dos insultos, calúnias e difamações que tiveram por objeto sua pessoa, que presenciei. 

Só para ilustrar, conto-lhes um episódio relativamente recente entre um homem bastante homem, conversando com uma mulher bastante mulher, se me entendem... Ali juntavam 'a fome com a vontade de comer'.

Como estava relativamente perto deles, mesmo que não fosse minha intenção, a conversa chegou-me aos ouvidos que, como sabem, estes não se fecham.

Ela dirigiu uma pergunta a ele que tinha por objetivo questionar a posição de JF que, muito obviamente, estava colocado na posição de mestre.

Ele, que caiu na sedução dela, conta seu drama pessoal para justificar uma série de impropérios que passou a dizer de JF, destilando ódio à flor da pele.

Ela seguiu animando e incentivando esta conversa: ofereceu sua falta, para que ele e seu saber de autoridade a justificasse em seus excessos cometidos.

Interrompi os dois. Impressionante constatar como nem ao menos percebiam como aquela conversa beirava a obscenidade e a falta de pudor.

É isso o que acontece nas transferências que não são trabalhadas em análise: ela fica com seu gozo na exclusão e ele com seu enfezamento gozoso. 

O que sei que foi a resposta de Forbes a cada um me fez lembrar a famosa frase de Buffon, completada por Lacan: "O estilo é o homem... a quem nos dirigimos". Receberam sua mensagem invertida. É a conseqüência na experiência analítica.

            Jorge se empresta à transferência. Como diz JAM, na segunda aula, pensando o psicanalista a partir do santo.  Os dois, subjetivamente falando, seguramente não se acharam bem tratados, respeitados. Fica evidente que ele suportou apenas... a prática de situar objetivamente o outro.

            E ela..., ela insistiu em se colocar de fora como se lá tivesse uma melhor visão das coisas e ele..., ele se colocou dizendo-se covarde e elogiando as mulheres, será que elogiando (?), como o real 'sexo forte' capaz de suportar qualquer insulto.

             Nem uma coisa, nem outra: não há saída e a hora é de acordar!

            JAM aponta como Lacan vincula a lógica da vida ao fato do sujeito não ser tolo de seu fantasma. Que está lógica está na vida, desapercebida do sujeito e que ser tolo em seu fantasma é usar uma tela de proteção. Que não ser tolo de seu fantasma é atingir o que há de real em sua própria vida. Existem os que preferem a exaltação do fantasma...

            Na primeira aula, JAM afirma "é claro que Lacan quis ser uma exceção e assumir-se como exceção". JF é uma exceção, também uma exceção. Não sei dizer se ele quer se assumir como uma exceção. Sei que ele não se poupa, uma vez aí colocado.

           Com certeza posso dizer que ele é ao menos um que sustenta a ética da psicanálise. Não se furta a emprestar-se a ela e por isso mesmo é objeto de tanta calúnia e difamação. Ele nos convida o tempo todo a suportar essa responsabilidade também.

            JAM conta que Lacan era alguém que enfrentava a lei, que nas mais pequenas coisas, enfrentava a lei. Mais uma vez me fez lembrar JF. Ele enfrenta a lei e não tem o menor prurido em enfrentar a lei que, inclusive, ele mesmo ajudou a estabelecer.

             Refiro-me ao episódio acontecido em Comandatuba onde Mayana Zats foi impedida de participar do congresso da EBP por seu presidente que foi quem fez o papel do policial de trânsito da vez.  Jorge não descansou enquanto ela não recebeu as devidas desculpas, por escrito.

            Como bem precisa JAM: "Não é uma ética abstrata, é uma ética. Digam a palavra: é um modo de gozar."

            E quando JAM fala de Lacan contra mèden agan? Em nossa última reunião, vocês se recordam de Jorge contando da crítica de Miller sobre o Pluto no palácio de Versailles? Um exemplo primoroso do que ele próprio   comentou sobre o que o senso comum dos franceses orgulha-se de chamar de "bom gosto", cores do mèden agan. É hilário!

            JF nunca foi adepto do "nada demasiado". Ele é totalmente demais! Às vezes: muito, tudo, sempre, num excesso do demasiado nos inunda com sua presença. Outras: não, nada, nunca, num demasiado do pouco de um minimalismo nobiliárquico. Sem bom senso, com senso estético. Não tem medida, jamais inconseqüente. Contra a mediocridade, muito criativo.

            E nos restaurantes. Também vale falar de JF nos restaurantes. Num piscar de olhos, Jorge coloca, do manobrista ao maître, todos a servirem solícitos nada menos do que há de bom e do melhor. É sempre adorável acompanhá-lo e ser tão bem tratada. Realmente não é para qualquer esse savoir faire. Como diz a fórmula de Cocteau, ele sabe até onde se pode ir no demasiado adiante. 

            Como Freud, Lacan, para Forbes, na análise, as boas razões, as desculpas também não colam. Não dá a menor 'pala' para a má vontade da resistência.

            Nas instituições e nos módulos, quem o acompanha bem o sabe - não se explique, não se justifique: faça. Uma incidência traumatizante, às vezes insuportável.  Ele aí, não guarda nenhuma medida. Já acompanhei momentos em que ele não hesitou em acabar com uma atividade, cindindo o grupo, determinando novos rumos para quem o acompanhasse ou não.

            Na diferença absoluta de Lacan, no paradigma, nesta singularidade, JAM captou algo da presença do analista. Tenho a clara impressão de que essa presença ressoa em Forbes.

            Uma diferença que constato entre os dois: Lacan se colocava barroco, não se preocupava em se fazer entendido em sua transmissão enquanto que, Jorge busca o máximo da clareza. Será um sinal dos tempos?